Nova seleção inclui atenção concentrada e dividida e procura candidatos com controle emocional, autonomia, liderança e capacidade de mediação de conflitos
O novo concurso da Guarda Municipal de Manaus (AM) ampliou de 21 para 23 o número de características avaliadas no exame psicológico dos candidatos. O edital passou a incluir a atenção concentrada e a atenção dividida no perfil profissiográfico, reformulou os parâmetros de ansiedade e impulsividade e detalhou as exigências ligadas ao futuro porte funcional de arma de fogo.
O concurso, organizado pelo Instituto Consulplan, oferece 590 vagas. Mais de 24 mil candidatos fizeram as provas objetiva e discursiva, aplicadas em maio, e o teste de aptidão física, realizado em agosto. Os aprovados nessa etapa seguem agora para exames médicos, avaliação psicológica, investigação social e curso de formação.

Avaliação psicológica
Segundo o edital, a seleção não se limita a medir resistência à pressão. Busca também candidatos com capacidade de se relacionar com a comunidade, tomar decisões com autonomia e lidar com conflitos sem reações explosivas.
A psicóloga Letícia Soares, especialista em avaliação para concursos de segurança pública e carreiras jurídicas e diretora da LJ Psicologia, avalia que o documento traça o perfil de um profissional que precisa equilibrar capacidade operacional, estabilidade emocional e habilidade de relacionamento.
“Coragem, firmeza e resistência ao estresse continuam importantes, mas não são suficientes. A Guarda quer alguém que sustente a atenção diante de diferentes estímulos, decida com segurança, controle a resposta emocional e ainda saiba se comunicar com a população. É um perfil difícil de reunir, porque pede agilidade sem impulsividade e autoridade sem agressividade descontrolada”, diz.
Novas características
O concurso de 2023, organizado pelo IBFC, avaliava 21 características. O novo edital manteve parte dessa estrutura e acrescentou a atenção concentrada e a atenção dividida, mas mudou a forma de avaliar ansiedade e impulsividade. Em 2023, o edital exigia níveis baixos para as duas características. Agora, ambas passaram a ser classificadas como “adequadas”, dentro da faixa mediana usada na análise psicométrica.
A psicóloga Juliane Nascimento, especialista em avaliação psicológica e preparação de candidatos para concursos públicos e diretora da LJ Psicologia, explica que essa mudança não significa menos valorização da serenidade ou do planejamento.
“Impulsividade zero não é o alvo. Em certas situações, é preciso ter iniciativa e reagir rápido. O problema é agir sem reflexão, de forma desproporcional. Com a ansiedade acontece algo parecido: em nível adequado, ela ajuda a antecipar riscos e planejar. O excesso atrapalha, mas a ausência total também pode comprometer o julgamento”, afirma.

Guarda deverá agir e dialogar
A capacidade de mediação de conflitos é uma das características centrais do perfil. O edital reconhece que o guarda vai lidar com cidadãos em situações de conflito e precisa agir com autoridade, equilíbrio, ética e bom senso.
Juliane detalha o raciocínio por trás dessa exigência. “O guarda municipal encontra pessoas alteradas, vítimas fragilizadas, brigas de família, ocorrências em espaços públicos: muita coisa que pede decisão imediata. Só reagir rápido não resolve. Ele tem que entender o contexto, se comunicar com clareza e dar uma resposta proporcional. Por isso controle emocional, flexibilidade, liderança e relacionamento interpessoal aparecem sempre juntos no perfil”.
Letícia vê esse equilíbrio como um dos pontos mais delicados da seleção. “É uma das exigências mais sensíveis nas carreiras armadas. A pessoa precisa de tenacidade para enfrentar obstáculos e tolerância à frustração, mas sem responder com hostilidade a qualquer contrariedade. Por isso a avaliação olha para as características em conjunto, já que nenhum resultado isolado conta a história toda”.
Avaliação também considera porte de arma
O edital estabelece que a avaliação psicológica serve tanto para verificar a compatibilidade com o cargo quanto para atender às exigências do futuro porte funcional de arma de fogo. A banca será formada por psicólogos habilitados e credenciados pela Polícia Federal.
Essa exigência decorre do Estatuto da Guarda Municipal de Manaus. A Lei Complementar municipal nº 16/2021 prevê avaliações psicológicas periódicas dos guardas, permite novos exames em prazo inferior a dez anos quando houver justificativa, e determina acompanhamento psicossocial mensal para quem porta arma de fogo.
Para Letícia, essa estrutura mostra que a aptidão psicológica não se encerra no dia do concurso. “O trabalho armado pede acompanhamento contínuo, e a corporação já parte desse princípio. O candidato não disputa apenas uma vaga. Ele vai ingressar em uma rotina de exposição ao estresse, decisões sob pressão, contato com conflito e responsabilidade sobre o uso da força. Quem se prepara precisa pensar na carreira, não só no dia da prova”.
Preparação não se confunde com treinamento para testes
Diferente de uma prova objetiva, a avaliação psicológica não tem conteúdo para decorar. Os instrumentos são padronizados e medem características específicas do candidato. Por isso, a preparação não deve ser confundida com antecipação de gabarito, memorização de “respostas certas” ou qualquer tentativa de manipular o resultado.
Juliane resume o limite dessa preparação: “Não existe fórmula pronta para virar o perfil ideal. Tentar ‘construir um personagem’ é antiético e, na prática, também não funciona: geralmente aparece contradição nos resultados. O trabalho sério é ajudar o candidato a entender as exigências da carreira, reconhecer como reage sob pressão e desenvolver recursos psicológicos reais. Não é treinar pra passar num teste, é preparar a pessoa pra uma avaliação exigente”.
Inaptidão pode ser analisada tecnicamente
O resultado da avaliação é expresso como apto, inapto ou ausente. Inaptidão não equivale a diagnóstico de transtorno psicológico ou de personalidade. Indica apenas que o candidato não atingiu, naquele momento, os níveis psicométricos definidos para o cargo.
O novo edital também detalhou mais a separação entre a banca que aplica os testes e a que revisa os recursos. A comissão de recursos precisa ser independente e imparcial. Psicólogos que participaram da aplicação, correção ou análise inicial ficam impedidos de integrar essa banca.
Quem for considerado inapto pode pedir entrevista devolutiva para saber os motivos do resultado. É possível comparecer sozinho ou acompanhado de psicólogo, mas a discussão técnica dos instrumentos usados só pode acontecer com o profissional contratado presente.
Letícia explica a diferença: “Sozinho, o candidato recebe informações gerais, sem acesso à leitura técnica do material. Com o psicólogo assistente, dá pra analisar os indicadores, entender quais características pesaram no resultado e checar a coerência entre os instrumentos aplicados e o perfil exigido no edital”.
A especialista lembra que a entrevista devolutiva não é um recurso nem uma repetição dos testes. Ela reúne informações que podem embasar um pedido de revisão administrativa. Juliane fecha o raciocínio: “Nem toda inaptidão esconde uma irregularidade, mas também não dá para entrar com recurso sem saber exatamente quais indicadores levaram ao resultado. A assistência técnica serve para isso, ou seja, checar se houve coerência entre os instrumentos, a interpretação dos dados e as exigências do cargo. Um recurso que tem chance de prosperar nasce dessa análise, não de argumento genérico sobre esforço, currículo ou mera vontade de entrar na corporação”.
